Quando a presidente do ICAD, Joana Teixeira, foi ouvida em comissão parlamentar em janeiro de 2026, as primeiras palavras foram sobre jovens: “um aumento da problemática de jogo, sobretudo nos mais jovens e no contexto online.” Este enquadramento não é retórico – está sustentado por dados concretos que saíram nos últimos dois anos. 18% dos jovens portugueses entre os 13 e os 18 anos jogaram a dinheiro no último ano, segundo o Estudo ECATD 2024. É um em cada seis adolescentes. E o contexto online está a mudar a velocidade e a profundidade com que o jogo problemático se desenvolve neste grupo etário.
Este artigo apresenta os dados, explica os fatores de risco específicos dos jovens, descreve os sinais de alerta e indica os recursos de apoio disponíveis em Portugal.
O que dizem os dados sobre jogo e jovens em Portugal
O Estudo ECATD 2024 – o estudo europeu coordenado sobre álcool e drogas entre adolescentes – revelou que 18% dos jovens portugueses entre os 13 e os 18 anos jogaram a dinheiro no último ano. As práticas mais comuns incluem lotarias e raspadinhas (acessíveis fisicamente apesar das restrições de idade), apostas desportivas e jogos de cartas com apostas.
1,3% da população portuguesa apresenta sinais de risco de jogo problemático e 0,6% evidencia dependência, segundo o Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas de 2022. Estes números parecem baixos em termos absolutos, mas representam dezenas de milhares de pessoas – e nas faixas etárias mais jovens a concentração é desproporcionalmente alta.
O crescimento no número de pessoas em tratamento é o dado mais preocupante. Em 2023, 358 pessoas estavam em tratamento ambulatório na rede pública por problemas de jogo. Em 2024, esse número subiu para 548. Em 2025, para 693. O crescimento consistente reflete tanto o aumento do problema como uma melhoria no reconhecimento e no acesso ao tratamento – ambos os fatores estão em jogo.
Por que os jovens são mais vulneráveis ao jogo problemático
O cérebro humano completa o desenvolvimento do córtex pré-frontal – a área associada ao controlo de impulsos, à avaliação de risco e à tomada de decisões de longo prazo – apenas por volta dos 25 anos. Esta é uma razão neurológica concreta para a maior vulnerabilidade dos adolescentes e jovens adultos ao jogo problemático: a capacidade de resistir a impulsos imediatos em favor de consequências futuras está literalmente a desenvolver-se.
O ambiente digital amplifica este risco. O jogo online está disponível 24 horas por dia, no telemóvel, sem barreiras físicas de entrada. O design das plataformas – notificações push, loops de feedback imediato, possibilidade de cash out em tempo real – está optimizado para manter o envolvimento. Para um adolescente com menos ferramentas de autorregulação, este ambiente é mais arriscado do que o casino físico onde um porteiro pode pedir identificação.
Os mecanismos sociais também importam. As apostas desportivas têm um componente de pertença social – apostar no jogo de sábado com amigos, participar em grupos de análise, partilhar resultados nas redes sociais – que as torna culturalmente próximas de outras atividades de sociabilização juvenil. Esta integração social dificulta o reconhecimento do problema tanto pelo jovem como pelo seu entorno.
Sinais de alerta em jovens: o que pais e educadores devem reconhecer
Os sinais de jogo problemático em jovens são frequentemente subtis nas fases iniciais. A lista que se segue não é diagnóstica – é um conjunto de indicadores que justificam conversa e atenção, não julgamento.
Preocupação crescente com dinheiro: pedidos frequentes de dinheiro sem explicação satisfatória, dívidas a amigos ou familiares, venda de pertences. O dinheiro é o combustível do jogo – a sua ausência ou o comportamento à volta dele é frequentemente o primeiro sinal visível.
Alterações no tempo passado no telemóvel: não o uso geral do telemóvel, que é universal entre jovens, mas o uso em contextos específicos – durante a noite, durante atividades familiares, com um nível de urgência ou irritabilidade quando interrompido que sugere algo mais do que uma conversa de chat.
Mudanças de humor ligadas a resultados desportivos: um jovem cujo humor oscila dramaticamente consoante os resultados de jogos específicos – não como aficionado, mas com uma intensidade emocional desproporcional – pode estar a lidar com perdas de apostas, não apenas com o desapontamento de um adepto.
Isolamento, abandono de interesses anteriores, queda no rendimento escolar: estes são sinais de fases mais avançadas, quando o jogo já ocupa um espaço mental e temporal que compete com outras atividades e relações.
Recursos de apoio em Portugal
O ICAD (Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências) é a principal entidade pública de referência. Gere a linha de apoio ao jogo, financia programas de tratamento na rede pública e publica as orientações clínicas para profissionais de saúde. Em 2025, estiveram em tratamento 693 pessoas na rede ambulatória pública por problemas de jogo – um crescimento que demonstra tanto a dimensão do problema como a existência de resposta clínica.
O portal JogoResponsavel.pt centraliza informação sobre recursos, linha de apoio e autoexclusão. É o ponto de entrada recomendado tanto para jogadores que reconhecem um problema como para familiares preocupados com alguém próximo.
Os centros de aconselhamento do ICAD e as equipas de saúde mental dos centros de saúde podem fazer avaliações e encaminhar para tratamento especializado. O acesso não requer encaminhamento médico prévio – pode ser feito diretamente pelo próprio ou por familiar. Os serviços são gratuitos no sistema público de saúde.
Para pais e educadores que querem abordar o tema com jovens, o ICAD disponibiliza materiais pedagógicos específicos sobre literacia financeira e jogo. A conversa aberta sobre o que são as apostas, como funcionam as odds e por que razão o jogo online não é um caminho para ganhar dinheiro é mais eficaz do que a proibição ou o silêncio. Os jovens que recebem educação financeira e de literacia mediática sobre o tema tendem a ter uma relação mais consciente com o jogo quando atingem a maioridade.
A linha de apoio ao jogo do ICAD funciona de forma confidencial e é acessível a qualquer pessoa – jogadores, familiares ou amigos preocupados. Não é necessário estar em crise aguda para ligar: a linha serve também para esclarecimento de dúvidas, orientação sobre recursos disponíveis e apoio a familiares que não sabem como abordar a situação com o jovem.
