Quando analiso o mercado português de apostas com a lente europeia, o que mais me surpreende não é o volume absoluto – é a velocidade de crescimento. Portugal cresceu 32% em receita bruta de jogo online em 2024, num mercado europeu que cresceu 7,84% no mesmo período. Esta diferença de ritmo não é acidente: reflete uma combinação de regulação favorável, alta penetração de mobile e uma cultura desportiva intensa centrada no futebol. Comparar Portugal com outros mercados europeus revela o que nos distingue – e o que podemos aprender com modelos mais maduros.
Portugal no contexto europeu: dimensão e crescimento
O mercado europeu de gambling regulado atingiu 137 mil milhões de euros em GGR em 2024, com o segmento online a representar 40% – cerca de 55 mil milhões de euros. Portugal gerou 1,11 mil milhões de euros em GGR online em 2024, o que representa cerca de 2% do total europeu online – uma quota significativa para um país com 10 milhões de habitantes e menos de 0,2% da população europeia.
Em termos per capita, Portugal está acima da média europeia em volume de apostas online. Esta concentração explica-se por vários fatores: regime de licenciamento aberto e relativamente liberal desde 2015, forte cultura de apostas desportivas ligada ao futebol, penetração de smartphones acima da média europeia e adoção massiva do MB WAY como método de pagamento instantâneo. Cada um destes fatores contribui para um ecossistema onde apostar online é, para muitos portugueses, mais acessível e conveniente do que nos países vizinhos.
O mercado europeu de apostas desportivas especificamente atingiu 49,4 mil milhões de dólares em receita em 2024, com crescimento anual previsto de 10,6% até 2030. Portugal deverá crescer acima desta média nos próximos anos, mas a taxa de crescimento vai gradualmente estabilizar à medida que o mercado amadurece e a base de apostadores ativos se aproxima do seu teto natural.
Comparação com Espanha: regulação mais restritiva, mercado diferente
Espanha é o ponto de comparação mais óbvio – país ibérico, cultura desportiva similar, dimensão do mercado quatro vezes superior. Mas os dois mercados têm diferenças estruturais importantes que explicam dinâmicas distintas.
A regulação espanhola endureceu significativamente em 2021 com o Real Decreto 958/2020, que entrou em vigor em março desse ano. As restrições incluem proibição de publicidade de apostas em televisão entre as 6h00 e as 24h00 durante os dias em que há eventos desportivos, limitações ao uso de celebrities e desportistas em publicidade, restrições a bónus de boas-vindas (proibição de atribuição a jogadores já registados) e limites ao marketing digital. O impacto foi imediato: o GGR de apostas desportivas em Espanha caiu nos primeiros trimestres após a implementação antes de estabilizar.
Em Portugal, a regulação publicitária é menos restritiva do que em Espanha, embora o debate sobre aperto das regras esteja ativo, como referido nas discussões parlamentares de 2025-2026. Esta diferença explica parcialmente por que Portugal cresce mais depressa – o mercado ainda tem “espaço” que Espanha já saturou sob regulação mais apertada.
Comparação com a Suécia: re-regulação e canal único
A Suécia é o modelo de referência europeu para países que re-regularam o jogo online, tendo implementado em 2019 um regime de licenciamento aberto que substituiu o antigo monopólio estatal. A experiência sueca é estudada em toda a Europa porque é suficientemente recente para ter dados mensuráveis de impacto.
O modelo sueco combina licenciamento liberal com obrigações rigorosas de jogo responsável: limite de depósito semanal de 5.000 coroas (aproximadamente 450 euros), restrições a bónus, campanhas obrigatórias de jogo responsável e integração obrigatória com o sistema nacional de autoexclusão Spelpaus. O resultado foi uma redução do mercado negro de estimados 30-40% para menos de 15% do mercado total sueco nos primeiros anos após a re-regulação.
Portugal tem um perfil semelhante ao sueco na estrutura regulatória (licenciamento aberto, SRIJ como entidade única de supervisão, autoexclusão centralizada) mas com requisitos de jogo responsável menos estritos. O JogoResponsavel.pt é o equivalente português do Spelpaus sueco – mas sem os limites de depósito mandatórios que o modelo sueco impõe.
Comparação com o Reino Unido: o mercado mais maduro da Europa
O mercado britânico de apostas online é o maior e mais maduro da Europa, com a UK Gambling Commission como regulador de referência internacional. Em 2024, o GGR online britânico superou os 6 mil milhões de libras – mais de seis vezes o mercado português apesar de ter apenas seis vezes a população. A diferença de escala per capita é menor do que parece, mas o nível de sofisticação do mercado britânico – em termos de produto, competição entre operadores e exigências regulatórias – está décadas à frente de Portugal.
O que Portugal pode aprender com o mercado britânico é principalmente sobre proteção do consumidor e jogo responsável. A UK Gambling Commission impôs em 2023-2024 requisitos de “affordability checks” – verificações de acessibilidade financeira para apostadores com perdas acima de certos limiares – e reforçou as obrigações de monitorização ativa de comportamentos de risco pelos operadores. São medidas que Portugal ainda não implementou na mesma escala.
A evolução britânica aponta para onde o mercado europeu – incluindo Portugal – vai provavelmente caminhar: menos publicidade, mais jogo responsável integrado na operação, maior escrutínio sobre padrões de jogo individual. Para o apostador português, compreender este trajeto é compreender como o mercado onde aposta vai mudar nos próximos anos.
O debate sobre a velocidade e o tipo de reformas que Portugal deve adotar está ativo no Parlamento e nas entidades reguladoras. O que a comparação europeia mostra claramente é que não há um modelo único – cada país equilibra de forma diferente a proteção do consumidor, a receita fiscal e a contenção do mercado negro. Portugal, com o seu crescimento recente e a sua dinâmica demográfica jovem, enfrenta decisões regulatórias com implicações de longo prazo para o equilíbrio destes três fatores.
Para o apostador português, o enquadramento europeu importa porque define o contexto em que os operadores licenciados em Portugal operam. Os membros da EGBA – a associação europeia que reúne os principais operadores licenciados – reportaram que em 2024 pagaram 3,8 mil milhões de euros em impostos às economias europeias e enviaram 100 milhões de mensagens de jogo seguro aos seus utilizadores. Este compromisso coletivo com os mercados regulados é o que diferencia a experiência de apostas num operador licenciado português de qualquer alternativa fora do sistema regulado.
